Não sabiam de onde vinham. Mas sabiam quem eram.
Desde que se recordavam, sempre tinha existido.
Desde que se recordavam, o mundo era a sua casa, mas a sua morada não residia em parte alguma. Empurravam-na consigo pelas paragens do Destino. Pelas paragens, onde paravam mas não permaneciam. Empurrados ao sabor do vento, movidos por um desejo de Liberdade ou, simplesmente, pelas vontades daqueles que não os deixavam ficar.
Foi assim que conheceram as planícies. Atravessaram cordilheiras. Desceram aos mais profundos vales. Subiram às altas montanhas e aproximaram-se dos céus. O mesmo céu companheiro que lhes dava cobertura. Dia após dia. Noite após noite. O céu por cima de si. Os trilhos vincados deixado atrás de si. Marcas deixadas pela roda da Fortuna. Marcas de quem vive no improviso dos dias não planeados. De quem vive ao sabor da corrente dos rios onde se banham as crianças, enquanto as mães lavam o pó da estrada das roupas, que ainda deixam adivinhar as cores vivas que um dia tiveram.
Quando se detinham em alguma parte, faziam desse local transitório a casa que não chegava a ser, a pátria que não chegaria a ser. A sua pátria é maior do que qualquer fronteira geográfica e temporal. A sua pátria é em toda a parte e em parte alguma. E por isso se sentem sem ela e a sentem a cada instante, porque ela é onde eles estão e onde estão aqueles que amam.
As noites iluminadas pelo luar, aquecidas pela fogueira e animadas pela música. Entrançadas nos seus acordes, cantam-se as histórias de quem não escreve, mas que transporta consigo todo o seu povo. Cantavam e dançavam. Aplaudiam a vida na sua dupla face, Alegria e da Tristeza. Palmas que marcavam o ritmo da vida. Que incitavam à sua dança perpétua.
Essa era a sua força. Não sabiam de onde vinham. Mas sabiam quem eram e de tudo faziam para nunca o esquecer. Porque sempre tinham existido e sabiam que iriam existir para sempre. Enquanto houvesse um céu sobre si e uma estrada a percorrer.
Escrito por: James Starfield
“É melhor escrever para si próprio e não ter público do que escrever para o público e não ter a si próprio.” Cyril Connolly
Um desejo de Voar
Os carros passavam, pequenos e velozes, como formigas que se dirigem atarefadas para o formigueiro, percorrendo trilhos de asfalto.
As copas das árvores assemelhavam-se a frondosos manjericos, como aqueles que perfumam as festas dos Santos Populares, mesclando-se com o odor das sardinhas assadas e com o alarido das alegres multidões que dançam ao som da música de baile.
As roupas nos estendais eram bandeiras multicolores sacudidas pelo vento, e os estendais, um emaranhado de teias de aço.
Dali conseguia perceber os rios como finas veias azuis que serpenteavam entre margens, levando a vida correndo dentro de si.
Só o mar permanecia imenso. O mar é imenso, independentemente do ângulo que escolhemos para o olhar. Imenso e eterno. O mar é o imenso e eterno espelho do céu.
Dali, tudo lhe parecia mais belo. Distante e belo. Como se a beleza só pudesse ser percebida a partir daquele ponto de vista. (Engraçado! Estando no meio das coisas, muitas vezes, não nos apercebemos delas).
À sua frente, as janelas deixavam transparecer vidas que decorriam alheias. Quem seriam aquelas pessoas? Que estariam a fazer? Seriam felizes?
Esboçou um sorriso e esperou que assim fosse. Não os conhecia, mas desejava-lhes a Felicidade. E quis dizer-lhes quão belo era o Mundo.
A uma das janelas assomou-se uma criança e acenou-lhe. Respondeu ao aceno com um olhar de ternura. Por instantes, o olhar de um ficou preso no do outro. E ambos sorriram. Um sorriso de alegria, respondido com um sorriso de nostalgia. Disse Adeus à criança que um dia fora. Quando passava as tardes soalheiras de Verão a brincar na rua a engendrar estratégias de ataque contra as investidas dos índios que atacavam a caravana. Ou a fazer bolinhos de lama, servidos com um chá imaginário, no imaginário que era a casinha. Também podia ser a tentar acertar com os berlindes nas três covinhas escavadas com o calcanhar girando sobre si mesmo. Ou, ainda, a empurrar carrinhos entre pistas alisadas na terra. Ou a saltar ao elástico, ao ritmo das cantilenas, por vezes sem sentido, que não o sentido de aproveitar as tardes soalheiras.
Mas agora sentia apenas um profundo desejo de voar, de elevar-se para lá das nuvens, para lá do Mundo. Abriu os braços e abraçou-o num breve instante.
Escrito por: Sphynx
As copas das árvores assemelhavam-se a frondosos manjericos, como aqueles que perfumam as festas dos Santos Populares, mesclando-se com o odor das sardinhas assadas e com o alarido das alegres multidões que dançam ao som da música de baile.
As roupas nos estendais eram bandeiras multicolores sacudidas pelo vento, e os estendais, um emaranhado de teias de aço.
Dali conseguia perceber os rios como finas veias azuis que serpenteavam entre margens, levando a vida correndo dentro de si.
Só o mar permanecia imenso. O mar é imenso, independentemente do ângulo que escolhemos para o olhar. Imenso e eterno. O mar é o imenso e eterno espelho do céu.
Dali, tudo lhe parecia mais belo. Distante e belo. Como se a beleza só pudesse ser percebida a partir daquele ponto de vista. (Engraçado! Estando no meio das coisas, muitas vezes, não nos apercebemos delas).
À sua frente, as janelas deixavam transparecer vidas que decorriam alheias. Quem seriam aquelas pessoas? Que estariam a fazer? Seriam felizes?
Esboçou um sorriso e esperou que assim fosse. Não os conhecia, mas desejava-lhes a Felicidade. E quis dizer-lhes quão belo era o Mundo.
A uma das janelas assomou-se uma criança e acenou-lhe. Respondeu ao aceno com um olhar de ternura. Por instantes, o olhar de um ficou preso no do outro. E ambos sorriram. Um sorriso de alegria, respondido com um sorriso de nostalgia. Disse Adeus à criança que um dia fora. Quando passava as tardes soalheiras de Verão a brincar na rua a engendrar estratégias de ataque contra as investidas dos índios que atacavam a caravana. Ou a fazer bolinhos de lama, servidos com um chá imaginário, no imaginário que era a casinha. Também podia ser a tentar acertar com os berlindes nas três covinhas escavadas com o calcanhar girando sobre si mesmo. Ou, ainda, a empurrar carrinhos entre pistas alisadas na terra. Ou a saltar ao elástico, ao ritmo das cantilenas, por vezes sem sentido, que não o sentido de aproveitar as tardes soalheiras.
Mas agora sentia apenas um profundo desejo de voar, de elevar-se para lá das nuvens, para lá do Mundo. Abriu os braços e abraçou-o num breve instante.
Escrito por: Sphynx
Receita de Bacalhau
Respondendo a um pedido recorrente, aqui deixo uma receita que tem como protagonista: o Bacalhau!
Pegue-se numas postas demolhadas. Botam-se as mesmas desfiadas numa trabessa e rega-se com azeite.
Depois corta-se cebola às rodelas e bota-se a mesma por cima do bacalhau.
Entretando já temos umas batatinhas descascadas que se ajeitam ao redor da trabessa, cortadas às rodelas.
Batem-se dois obos e espalhasse por cima.
Bai ao forno e deicha-se cozer.
Quem gostar pode acompanhar com esparregado.
Bom apetite
Escrito por: Chef Gomes de Sá
Pegue-se numas postas demolhadas. Botam-se as mesmas desfiadas numa trabessa e rega-se com azeite.
Depois corta-se cebola às rodelas e bota-se a mesma por cima do bacalhau.
Entretando já temos umas batatinhas descascadas que se ajeitam ao redor da trabessa, cortadas às rodelas.
Batem-se dois obos e espalhasse por cima.
Bai ao forno e deicha-se cozer.
Quem gostar pode acompanhar com esparregado.
Bom apetite
Escrito por: Chef Gomes de Sá
Meditações sobre Cegonhas
Considerava-me razoavelmente preparada para os desafios da maternidade, consequência de ser a mais velha de uma extensa geração de primos e primas. Mudar fraldas, pôr bebés a arrotar, cantarolar o cancioneiro infantil, fazer papas Cerelac, negociar birras, não apresentavam grandes mistérios para mim.
E assim aconteceu. Os primeiros anos correram sem sobressaltos, a desembaraçar-me nas grandes tarefas maternas, a improvisar nos primeiros desassossegos. Entrámos na idade dos porquês. À cautela, a precaver o futuro, tinha observado cuidadosamente as perguntas dos petizes e as estratégias dos pais. Tinha rido deliciada com as aflições de uns e outros. Estava preparada, portanto.
Rapidamente percebi que explicar a origem dos bebés seria o menor dos meus problemas, e nem sequer tive de me socorrer do velhinho expediente da cegonha. Nas primeiras inquirições sobre o assunto, coloquei o meu ar professoral, e entre conceitos da biologia e histórias de príncipes e princesas, a coisa deu-se. Fui premiada com um espontâneo e desconcertante – “Que nojo!!!”, e uma providencial mudança de assunto. Tinha-me safo! Por ora…
As primeiras gotas de suor que me escorreram pela testa surgiram com as birras por um brinquedo novo. À tradicional resposta de “não tenho dinheiro”, a solução rápida e despachada: “- Vai ao Multibanco que ele dá-te as notas!”. E a explicação intricada sobre noções básicas de economia impôs-se. Mas se o Banco é nosso, como dizem na televisão, é só ir lá dentro e pedir as notas, argumentava ela. Pois, mas os bancos ficam com nosso dinheiro para que o apliquem em nosso benefício, porque assim ganha juros, dizia eu. (Eu! A quem ensinaram sempre que não se deve mentir às crianças…) E o debate académico sobre o funcionamento do nosso sistema fiscal prosseguia, terminando não raras vezes com a compra do almejado brinquedo…
A História de um país deve ser contada às gerações vindouras, por razões de cultura geral, mas sobretudo para que os erros do passado não se repitam. Segura desta minha convicção, abracei a hercúlea tarefa de explicar a Ditadura e a Revolução. Quando dei por mim, dissertava histórias de ogres e fadas, polarizando a nossa História recente, num relato que se traduziu em noites mal dormidas, com pesadelos – ela – e insónias – eu. Entre prisões políticas e cravos em espingardas, as descrições minuciosas sobre a cadeira do Salazar (teria espaldar? estava partida? e porque se lembrou ele de subir à cadeira?) e a confirmação quase sob juramento, uma e outra vez, de que está efectivamente morto. E a grande questão colocou-se: as pessoas não podiam falar porque o Salazar lhes punha fita-cola na boca?
Ainda imbuída deste espírito, tenho levado a minha filha comigo a todos os actos eleitorais, momentos que aproveito para uma introdução aos princípios elementares da participação cidadã em democracia. Na primeira vez, à saída da urna de voto, correu entusiasmada para a avó, aos gritos e apontando para as listas afixadas no recinto: “- A mãe votou naquele!!!” E como explicar que um acto com consequências tão importantes na nossa vida tem de permanecer secreto? Nos esclarecimentos sobre o “que é isso do Governo” também não fui feliz. Declarou-se, peremptória, contra toda e qualquer instância que cometa o atrevimento de lhe dar orientações, gerais ou específicas, porque “nela ninguém manda!”. E no final da cátedra, a tese.
Apresentada em toda a sua simplicidade axiomática, como só as crianças o conseguem fazer: “Votar é como as rifas.”
Escrito por: Mafalda
E assim aconteceu. Os primeiros anos correram sem sobressaltos, a desembaraçar-me nas grandes tarefas maternas, a improvisar nos primeiros desassossegos. Entrámos na idade dos porquês. À cautela, a precaver o futuro, tinha observado cuidadosamente as perguntas dos petizes e as estratégias dos pais. Tinha rido deliciada com as aflições de uns e outros. Estava preparada, portanto.
Rapidamente percebi que explicar a origem dos bebés seria o menor dos meus problemas, e nem sequer tive de me socorrer do velhinho expediente da cegonha. Nas primeiras inquirições sobre o assunto, coloquei o meu ar professoral, e entre conceitos da biologia e histórias de príncipes e princesas, a coisa deu-se. Fui premiada com um espontâneo e desconcertante – “Que nojo!!!”, e uma providencial mudança de assunto. Tinha-me safo! Por ora…
As primeiras gotas de suor que me escorreram pela testa surgiram com as birras por um brinquedo novo. À tradicional resposta de “não tenho dinheiro”, a solução rápida e despachada: “- Vai ao Multibanco que ele dá-te as notas!”. E a explicação intricada sobre noções básicas de economia impôs-se. Mas se o Banco é nosso, como dizem na televisão, é só ir lá dentro e pedir as notas, argumentava ela. Pois, mas os bancos ficam com nosso dinheiro para que o apliquem em nosso benefício, porque assim ganha juros, dizia eu. (Eu! A quem ensinaram sempre que não se deve mentir às crianças…) E o debate académico sobre o funcionamento do nosso sistema fiscal prosseguia, terminando não raras vezes com a compra do almejado brinquedo…
A História de um país deve ser contada às gerações vindouras, por razões de cultura geral, mas sobretudo para que os erros do passado não se repitam. Segura desta minha convicção, abracei a hercúlea tarefa de explicar a Ditadura e a Revolução. Quando dei por mim, dissertava histórias de ogres e fadas, polarizando a nossa História recente, num relato que se traduziu em noites mal dormidas, com pesadelos – ela – e insónias – eu. Entre prisões políticas e cravos em espingardas, as descrições minuciosas sobre a cadeira do Salazar (teria espaldar? estava partida? e porque se lembrou ele de subir à cadeira?) e a confirmação quase sob juramento, uma e outra vez, de que está efectivamente morto. E a grande questão colocou-se: as pessoas não podiam falar porque o Salazar lhes punha fita-cola na boca?
Ainda imbuída deste espírito, tenho levado a minha filha comigo a todos os actos eleitorais, momentos que aproveito para uma introdução aos princípios elementares da participação cidadã em democracia. Na primeira vez, à saída da urna de voto, correu entusiasmada para a avó, aos gritos e apontando para as listas afixadas no recinto: “- A mãe votou naquele!!!” E como explicar que um acto com consequências tão importantes na nossa vida tem de permanecer secreto? Nos esclarecimentos sobre o “que é isso do Governo” também não fui feliz. Declarou-se, peremptória, contra toda e qualquer instância que cometa o atrevimento de lhe dar orientações, gerais ou específicas, porque “nela ninguém manda!”. E no final da cátedra, a tese.
Apresentada em toda a sua simplicidade axiomática, como só as crianças o conseguem fazer: “Votar é como as rifas.”
Escrito por: Mafalda
Morreste de Madrugada
Morreste de madrugada,
Entre poesia e prosa,
Com a alma abraçada
Aos espinhos de uma rosa.
E essa rubra flor
Enebriou-te com o seu perfume.
(Tão doce, tão suave aquele odor!)
Adormeceste a imensa a dor,
Morrendo sem um queixume.
Escrito por: Sphynx
Entre poesia e prosa,
Com a alma abraçada
Aos espinhos de uma rosa.
E essa rubra flor
Enebriou-te com o seu perfume.
(Tão doce, tão suave aquele odor!)
Adormeceste a imensa a dor,
Morrendo sem um queixume.
Escrito por: Sphynx
Reencontro
O vento agitava as copas das árvores, despojando-as das poucas folhas que ainda resistiam ao crepúsculo outonal. Uma após outra, que se lhe juntava, iam aglomerando-se num leito castanho que atapetava o solo empapado pela chuva e pelo orvalho.
Chegara cedo, acompanhada pelos primeiros raios de sol, tímidos, encobertos, frágeis… Deteve-se por instantes ante o portão de ferro, aberto, fixo ao velho muro de pedra coberto de musgo. Dirigiu o seu olhar para vereda que se que se estendia à sua frente, ladeada por ciprestes, antes de iniciar a sua marcha processional.
E o vento soprou um bafo gélido.
Trazia um manto de veludo com o capuz sobre a cabeça que a cobria de negro e a tornava numa visão espectral.
O seu percurso era acompanhado por estátuas de pedra que vertiam lágrimas. Algumas, prostradas, num desfalecimento de dor sobre lajes frias e esquecidas entre a vegetação densa. Figuras ajoelhadas em pranto. Anjos que erguiam as asas aos céus e os apontavam, sugerindo um caminho para uma salvação que talvez fosse demasiado tarde para alcançar.
Todos eles, mais do que guardar alguém ou para além de lamentar, estavam ali para lembrar aos que passavam: Siste Viator! - Aspice Viator! (Detém-te Viajante - Olha Viajante).
E o vento era um lamento murmurado por entre as árvores.
Chegava ao final do seu caminho, junto a uma laje de mármore, despida, sobre a qual jazia unicamente uma pequena jarra de alabastro onde depositou delicadamente uma rosa, que segurava entre os dedos finos. E esse gesto revelou um braço alvo e uma pele suave e marfinosa. Em seguida, levou as mãos ao capuz e puxando delicadamente para as costas, revelou uns longos cabelos negros, que o vento se apressou a acariciar. E duas lagoas profundas de onde transbordaram lágrimas de saudade, descrevendo o contorno do rosto, deixando atrás de si um sulco bem menos profundo que o provocado pelo desgosto atroz que lhe tinha desfigurado o coração.
E o vento sussurrou uma elegia que falava de duas almas separadas na Sorte.
Olhou o céu cinzento, procurando o caminho da salvação de uma alma que ela desejava salva e a quem ansiava reunir-se na Eternidade. Que nunca mais a Senhora Negra a voltasse a apartar daqueles braços que um dia a haviam confortado. E recordando, ajoelhou-se num pranto mudo e sufocante, e apoiou a fronte na pedra fria, imaginando-a naquela onde tanta vez a tinha encostado com doçura. Depois beijou-a, colando-lhe os seus lábios carmesim, invocando em si doçura e o calor que agora não encontrava.
Quando de repente, num gesto súbito, a ferro frio traçou a linha do seu próprio destino, tomando-o no pulso.
E ficou ali, prostrada sobre aquele esquife de dor e saudade, decidida a unir-se a quem desejava que terra fosse leve. Petrificada naquele abraço, confundia-se com as demais imagens inertes que velavam os seus.
E o vento gritou… e depois…tornou-se uma brisa…
Escrito por: Nephilim
Chegara cedo, acompanhada pelos primeiros raios de sol, tímidos, encobertos, frágeis… Deteve-se por instantes ante o portão de ferro, aberto, fixo ao velho muro de pedra coberto de musgo. Dirigiu o seu olhar para vereda que se que se estendia à sua frente, ladeada por ciprestes, antes de iniciar a sua marcha processional.
E o vento soprou um bafo gélido.
Trazia um manto de veludo com o capuz sobre a cabeça que a cobria de negro e a tornava numa visão espectral.
O seu percurso era acompanhado por estátuas de pedra que vertiam lágrimas. Algumas, prostradas, num desfalecimento de dor sobre lajes frias e esquecidas entre a vegetação densa. Figuras ajoelhadas em pranto. Anjos que erguiam as asas aos céus e os apontavam, sugerindo um caminho para uma salvação que talvez fosse demasiado tarde para alcançar.
Todos eles, mais do que guardar alguém ou para além de lamentar, estavam ali para lembrar aos que passavam: Siste Viator! - Aspice Viator! (Detém-te Viajante - Olha Viajante).
E o vento era um lamento murmurado por entre as árvores.
Chegava ao final do seu caminho, junto a uma laje de mármore, despida, sobre a qual jazia unicamente uma pequena jarra de alabastro onde depositou delicadamente uma rosa, que segurava entre os dedos finos. E esse gesto revelou um braço alvo e uma pele suave e marfinosa. Em seguida, levou as mãos ao capuz e puxando delicadamente para as costas, revelou uns longos cabelos negros, que o vento se apressou a acariciar. E duas lagoas profundas de onde transbordaram lágrimas de saudade, descrevendo o contorno do rosto, deixando atrás de si um sulco bem menos profundo que o provocado pelo desgosto atroz que lhe tinha desfigurado o coração.
E o vento sussurrou uma elegia que falava de duas almas separadas na Sorte.
Olhou o céu cinzento, procurando o caminho da salvação de uma alma que ela desejava salva e a quem ansiava reunir-se na Eternidade. Que nunca mais a Senhora Negra a voltasse a apartar daqueles braços que um dia a haviam confortado. E recordando, ajoelhou-se num pranto mudo e sufocante, e apoiou a fronte na pedra fria, imaginando-a naquela onde tanta vez a tinha encostado com doçura. Depois beijou-a, colando-lhe os seus lábios carmesim, invocando em si doçura e o calor que agora não encontrava.
Quando de repente, num gesto súbito, a ferro frio traçou a linha do seu próprio destino, tomando-o no pulso.
E ficou ali, prostrada sobre aquele esquife de dor e saudade, decidida a unir-se a quem desejava que terra fosse leve. Petrificada naquele abraço, confundia-se com as demais imagens inertes que velavam os seus.
E o vento gritou… e depois…tornou-se uma brisa…
Escrito por: Nephilim
Na sala do fundo
Estavam reunidos na sala do fundo. Naquela noite, como em muitas outras, conversavam ao sabor de um café, envoltos pela névoa que se desprendia dos cigarros e que, lentamente, se esfumavam em conversas banais que acabavam por nunca o ser. Revestidas de duplos sentidos e interpretações subtis. Avaliavam cada palavra, cada gesto, cada silêncio, cada olhar. Os temas eram variados, mas nunca totalmente inocentes.
Eu tinha oito anos. Uma criança curiosa. Interrogava-me sobre o porquê das coisas. Buscava a causa das coisas, visíveis e invisíveis. Aquelas que se dizem existir, mas que nunca ninguém vê ou sabe explicar. Que muitas vezes nos chegam como “Ouvi dizer” ou “fulano contou-me que”.
Esse carácter oculto e misterioso do que não vemos ou nos é vedado, sobretudo quando não temos uma década de existência e centenas de perguntas, era suficiente para aumentar o fascínio e fazer-me tomar atenção. Atentar às conversas encriptadas dos adultos, num esforço de tornar imperceptível o significado do seu discurso. Aprendi a desconfiar.
Ouviam-se vozes, vindas da sala do fundo. A noite estava amena. Da janela do meu quarto via o céu e as estrelas tremeluzentes. Um pontilhado argênteo que eu unia para construir múltiplos desenhos. Não conseguia dormir. A minha atenção estava no som das vozes.
Levantei-me. Peguei no urso de peluche e saí do quarto.
Ao fundo do corredor, a porta entreaberta rasgava a escuridão com uma linha de luz. Encaminhei-me para aquele farol, apertando a mão do meu companheiro naquela incursão nocturna. Clandestina.
Caminhei com as pernas trémulas, movidas pelo ímpeto da curiosa vontade, em passos hesitantes. Querer escutar e temer ouvir. Às vezes os adultos ocupavam o tempo com conversas medonhas. Também me interrogava porque o faziam.
Estes serões tinham-me sido interditos, porque em alguns momentos, em que se falava de bandidos ou outras coisas ruins (como lhe chamava), ficava com medo do escuro e com medo de ir para a cama. E nessas alturas, avançava de interruptor em interruptor, até chegar à minha fortaleza. Debaixo dos lençóis estava a salvo. Com a cabeça tapada ninguém me via e assim a minha presença era despercebida.
Continuei a avançar. O corredor tornara-se mais longo e o tapete que o percorria tinha adquirido o dobro do comprimento.
As vozes tornavam-se mais nítidas.
Finalmente. Quem olhasse agora, do extremo oposto, veria uma linha de luz entrecortada por um vulto que a interrompia. Ajoelhado, com o urso de peluche unidos num abraço, espreitando.
Conversavam na sala do fundo, ao sabor de um café, envoltos na névoa que se desprendia dos cigarros, sentados nas velhas poltronas encovadas, marcadas por muitos outros serões.
“-Vou contar-te uma história de fantasmas!” – disparou à queima-roupa, aproveitando um breve momento de silêncio.
A resposta veio sob a forma de um breve anuir de cabeça, acompanhado por um sorriso nervoso. Arrisquei a adivinhar-lhe um agitar dentro do peito, evidenciado pela forma como se ajeitou na poltrona. Como se estivesse a amarrar-se ao mastro do navio antes da tormenta que parecia intuir.
Eu também me preparei para a força do desconhecido. Para o salto no vazio. Apertei mais o meu urso de peluche contra o peito. Creio que quase o sufoquei. Procurei nele a força necessária e disse para comigo: “Os fantasmas não existem”.
“Os fantasmas não existem” – pensou, procurando convencer-se daquela verdade e procurou convencer-se naquela afirmação.
Iniciou a narrativa fantasmagórica. Um, após outro foram invocados espíritos. Acordados do limbo em que se encontravam e trazidos à sua presença.
O ar tornava-se menos respirável. Tenso.
Senti um arrepio que me percorreu o corpo e me provocou um estremecer desconfortável. Pareceu-me ver o fumo dos cigarros tomar forma. Ou era uma forma que se materializava entre o fumo, sendo ela própria uma neblina densa. E pareceu-me ver emergir das paredes, erguendo-se do chão, descendo do tecto espectros que pairavam sobre as suas cabeças, entre eles. E não conseguia desviar o olhar, nem conter a estupefacção.
Eram demónios vindos do Inferno?
Um deles virou-se para mim. Olhou-me com as órbitas vazias e negras. Lançou um grito. E eu franzi os olhos com força e comprimi as palmas das mãos contra os ouvidos. Era ensurdecedor. Ainda que inaudível.
Parou. Silêncio. Abri os olhos. Tinha desaparecido ou pelo menos eu não o via. Mas logo veio outro.
Um, após outro foram invocados. Um, após outro, repelidos. Procurávamos repeli-los. Tanto quanto nos permitiam as forças.
Tal como náufragos que se debatem com as ondas sucessivas que, impiedosas, os assolam uma, após outra, esgotando as forças. Exaustos, acabam por sucumbir. Tragados pela inevitabilidade, são arrastados para o abismo.
O olhar vago. Rendido.
Penderam-lhe os braços, nos braços da poltrona. Olhou na direcção da porta e os seus olhos encontraram os meus. Não disse nada. Limitou-se a olhar-me e ambos nos reconhecemos naquele momento. Éramos um. À porta. Na sala do fundo.
A sua alma tinha sido possuída mas não exorcizada. Como quando se planta uma semente ruim que se deixa germinar e transformar numa planta venenosa.
A partir daquela noite nunca mais fui à sala do fundo.
Parte de si ainda lá está.
Escrito por: Sphynx
Eu tinha oito anos. Uma criança curiosa. Interrogava-me sobre o porquê das coisas. Buscava a causa das coisas, visíveis e invisíveis. Aquelas que se dizem existir, mas que nunca ninguém vê ou sabe explicar. Que muitas vezes nos chegam como “Ouvi dizer” ou “fulano contou-me que”.
Esse carácter oculto e misterioso do que não vemos ou nos é vedado, sobretudo quando não temos uma década de existência e centenas de perguntas, era suficiente para aumentar o fascínio e fazer-me tomar atenção. Atentar às conversas encriptadas dos adultos, num esforço de tornar imperceptível o significado do seu discurso. Aprendi a desconfiar.
Ouviam-se vozes, vindas da sala do fundo. A noite estava amena. Da janela do meu quarto via o céu e as estrelas tremeluzentes. Um pontilhado argênteo que eu unia para construir múltiplos desenhos. Não conseguia dormir. A minha atenção estava no som das vozes.
Levantei-me. Peguei no urso de peluche e saí do quarto.
Ao fundo do corredor, a porta entreaberta rasgava a escuridão com uma linha de luz. Encaminhei-me para aquele farol, apertando a mão do meu companheiro naquela incursão nocturna. Clandestina.
Caminhei com as pernas trémulas, movidas pelo ímpeto da curiosa vontade, em passos hesitantes. Querer escutar e temer ouvir. Às vezes os adultos ocupavam o tempo com conversas medonhas. Também me interrogava porque o faziam.
Estes serões tinham-me sido interditos, porque em alguns momentos, em que se falava de bandidos ou outras coisas ruins (como lhe chamava), ficava com medo do escuro e com medo de ir para a cama. E nessas alturas, avançava de interruptor em interruptor, até chegar à minha fortaleza. Debaixo dos lençóis estava a salvo. Com a cabeça tapada ninguém me via e assim a minha presença era despercebida.
Continuei a avançar. O corredor tornara-se mais longo e o tapete que o percorria tinha adquirido o dobro do comprimento.
As vozes tornavam-se mais nítidas.
Finalmente. Quem olhasse agora, do extremo oposto, veria uma linha de luz entrecortada por um vulto que a interrompia. Ajoelhado, com o urso de peluche unidos num abraço, espreitando.
Conversavam na sala do fundo, ao sabor de um café, envoltos na névoa que se desprendia dos cigarros, sentados nas velhas poltronas encovadas, marcadas por muitos outros serões.
“-Vou contar-te uma história de fantasmas!” – disparou à queima-roupa, aproveitando um breve momento de silêncio.
A resposta veio sob a forma de um breve anuir de cabeça, acompanhado por um sorriso nervoso. Arrisquei a adivinhar-lhe um agitar dentro do peito, evidenciado pela forma como se ajeitou na poltrona. Como se estivesse a amarrar-se ao mastro do navio antes da tormenta que parecia intuir.
Eu também me preparei para a força do desconhecido. Para o salto no vazio. Apertei mais o meu urso de peluche contra o peito. Creio que quase o sufoquei. Procurei nele a força necessária e disse para comigo: “Os fantasmas não existem”.
“Os fantasmas não existem” – pensou, procurando convencer-se daquela verdade e procurou convencer-se naquela afirmação.
Iniciou a narrativa fantasmagórica. Um, após outro foram invocados espíritos. Acordados do limbo em que se encontravam e trazidos à sua presença.
O ar tornava-se menos respirável. Tenso.
Senti um arrepio que me percorreu o corpo e me provocou um estremecer desconfortável. Pareceu-me ver o fumo dos cigarros tomar forma. Ou era uma forma que se materializava entre o fumo, sendo ela própria uma neblina densa. E pareceu-me ver emergir das paredes, erguendo-se do chão, descendo do tecto espectros que pairavam sobre as suas cabeças, entre eles. E não conseguia desviar o olhar, nem conter a estupefacção.
Eram demónios vindos do Inferno?
Um deles virou-se para mim. Olhou-me com as órbitas vazias e negras. Lançou um grito. E eu franzi os olhos com força e comprimi as palmas das mãos contra os ouvidos. Era ensurdecedor. Ainda que inaudível.
Parou. Silêncio. Abri os olhos. Tinha desaparecido ou pelo menos eu não o via. Mas logo veio outro.
Um, após outro foram invocados. Um, após outro, repelidos. Procurávamos repeli-los. Tanto quanto nos permitiam as forças.
Tal como náufragos que se debatem com as ondas sucessivas que, impiedosas, os assolam uma, após outra, esgotando as forças. Exaustos, acabam por sucumbir. Tragados pela inevitabilidade, são arrastados para o abismo.
O olhar vago. Rendido.
Penderam-lhe os braços, nos braços da poltrona. Olhou na direcção da porta e os seus olhos encontraram os meus. Não disse nada. Limitou-se a olhar-me e ambos nos reconhecemos naquele momento. Éramos um. À porta. Na sala do fundo.
A sua alma tinha sido possuída mas não exorcizada. Como quando se planta uma semente ruim que se deixa germinar e transformar numa planta venenosa.
A partir daquela noite nunca mais fui à sala do fundo.
Parte de si ainda lá está.
Escrito por: Sphynx
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