Fios

Fios que se entrecruzam nas malhas dos dias bordados.
Teias que teces,
Linha a linha,
Teia a teia.

És aranha. És tecelão. És bordadeira.

Teces a vida na Roda de Fiar. Roda da Fortuna.
Fias na Fortuna.

Fiar e desconfiar. Fiar e desfiar. Fiar e desafiar.

Roda. Roca. Fuso.
À roda. Rocambolesco. Confuso.

Dás pela fieira.
Passas à fieira.
As linhas com que coses, presas por um fio,
Dias a fio,
De fio a pavio.

O Equilibrista




Todos os anos chegavam à cidade numa caravana. Estacionavam no mesmo terreno baldio as roulottes velhas e erguiam a enorme tenda às riscas amarelas e azuis, quebradas por remendos que cobriam cicatrizes antigas - memórias de outros tempos, de outras paragens, de outros espectáculos realizados a coberto daquelas paredes de lona.

No exterior, os leões, os tigres, os póneis e os elefantes, faziam as delícias dos mais pequenos que acorriam ao local, precipitando-se para a frente das jaulas com o fascínio a brilhar-lhes nos olhos.

Pelas ruas eram afixados cartazes coloridos com rostos de palhaço, imagens de tigres a saltar para círculos de fogo. Apelos à presença e promessas de divertimento e emoções fortes, num espectáculo nunca antes visto.

Nessa noite, após as gargalhadas arrancadas pelos palhaços e o espanto e incredibilidade provocados pelo mágico, chegava a vez do equilibrista.

No centro da arena, um homem gordo com um casaco de abas de grilo, cartola numa mão e microfone na outra. Dirigiu-se aos “Meninos e meninas. Senhoras e senhores. Respeitável público”, anunciando o próximo número.

Chamava a atenção para a altitude.

(Todos os olhares se concentravam agora no tecto da tenda)

Chamava a atenção para a longitude.

(Todos os olhares percorreram o arame, unindo os dois pontos que o mantinham retesado e suspenso no ar)

O homem gordo anunciou o equilibrista e este surgiu ao público, no meio de um círculo de luz.

Entrou em passos de corrida e com um sorriso no rosto, estacando num gesto ensaiado, como que a dizer, “Aqui estou!” Fez uma vénia breve a agradecer os aplausos entusiastas e deu mais uns passinhos de corrida, sempre acompanhado pelo halo luminoso que o acompanhava enquanto subia, degrau a degrau, na direcção da plataforma. Aí, aguardava-o uma assistente com uma vara longa e uma venda para os olhos.

Ao chegar ao topo, olhou para baixo, para as cabecinhas minúsculas e mãos que se agitavam e retribuindo-lhes com um aceno. Para a equipa de paramédicos que se concentrava numa das entradas. Para uma equipa de assistentes que esticavam uma rede piso de areia, mas que não ergueram.

Ouviu o apresentador chamar a atenção para o facto dele não saber sequer se iria ter rede abaixo de si, suscitando a comoção do público.

Olhou para a frente, para a outra extremidade do arame.

Pegou na vara e fez sinal à assistente para que esta lhe vendasse os olhos.

Olhou para dentro de si.

Naquele momento, abateu-se sobre a tenda um silêncio quebrado apenas por um rufar de tambor que acompanhava cada gesto, cada passo.

Lentamente, conduziu o pé ao arame. Sentiu-o. Tacteou-o e deu o seu primeiro passo na escuridão, como quem salta para o desconhecido. Avançou, e pensou na rede que não sabia se estava lá para lhe amparar uma possível queda. Sabia-a estendida no chão, mas desconhecia-a erguida. Dependia exclusivamente do seu equilíbrio, da sua capacidade de orientar-se no escuro e de uma confiança que depositava cegamente nos assistentes.

A cada ligeiro desequilíbrio, elevavam-se gritos, reacções assustadas que não ouvia, porque o bater do seu coração abafava qualquer outro som. Agarrava mais firmemente a vara, como se agarrasse a vida. Vida suspensa por um fio de aço frio. Tinha medo. Por mais vezes que tivesse repetido aquele exercício, sentia sempre medo. Sentia uma vontade imensa de retirar a venda, mas não o conseguia fazer ali, algures no arame. Só podia seguir em frente ou deixar-se cair. Mas deixar-se cair no vazio sem saber se a rede estava lá?

O suor escorria-lhe pelo rosto. Os músculos, tensos, tremiam-lhe e faziam tremer a linha ténue e incerta, fronteira entre tanta coisa que lhe atravessava a mente, naquela travessia.

Medo. Angústia. Coragem. Desespero. Certeza da incerteza.

“A rede? Onde raio estaria a rede?” – pensou. De que lhe adiantava saber que existia, se desconhecia se estava lá?

Sorriso. Escárnio. Maldizer a sorte.

Paulatinamente, sentia-se invadir por um desprendimento, de quem caminha sem querer saber, num abandono solitário. Tinha de seguir e era isso que iria fazer até onde conseguisse. Dar o seu melhor. Afinal, era isso que o público esperava de si.

E se caísse e a rede o segurasse, tanto melhor.

A Última Visão



Ontem perguntaram-me se queria saber quando ía morrer.

Uma pergunta que já me fiz inúmeras vezes.

Uma resposta que sempre se me foi difícil de encontrar.

Tento colocar-me nesse cenário, imaginando o modo como alteraria a minha percepção da Vida e daquela que me restasse. Faria uma série de coisas que sempre quis fazer ou simplesmente deprimiria por saber que escasso era o tempo para o fazer?

Sei que passaria em revista toda a minha vida. Concluí, igualmente, que passaria grande parte dos meus últimos dias a escrever cartas. Sim, cartas! Cartas endereçadas a uma série de pessoas que considero significativas na minha vida, que não poderia ignorar ou esquecer, nem permitir que se considerassem ignoradas e esquecidas. Pessoas a quem devo ou sinto que devo essas últimas palavras, esse último gesto.

Pediria desculpa pelos meus erros e omissões. Por ter ferido e ofendido.

Dirigiria profundos agradecimentos.

Quantas pessoas nos são queridas e especiais sem que lho digamos? E não havendo um dia que não pensemos nelas e lhes desejemos o melhor, de que adianta se não lho dizemos, se não o demonstramos, assumindo que elas o sabem. Mas, e se não souberem, porque não o sentem?

Por isso, carta a carta, linha a linha, palavra a palavra, procuraria a redenção das minhas faltas.

Contudo, nova questão: Porque simplesmente não o fazemos? Porquê esperar pelos “últimos dias”? Porque nos preocupa apenas a redenção na morte? Quando, provavelmente, é tarde demais?

Pessoas existem a quem o digo e manifesto, que o sabem sem que tenha de lhes dirigir uma última mensagem. E esse facto deixa-me um pouco mais aliviado e feliz por saber que tento, pelo menos, corrigir essa falha em mim.

Outras existirão a quem não o faço e que, possivelmente, nunca o farei. Poderei nunca vir a ter essa oportunidade.

Mas, mais do que saber quando se irá morrer, interrogo-me acerca da última imagem que se leva da vida. Qual é a última coisa que veremos antes de fechar os olhos pela última vez? Qual o último som? Teremos tempo para dizer uma última palavra? Qual?

Ontem fiquei a saber que o cérebro leva cerca de cinco minutos a morrer. E nesses eternos cinco minutos, qual será a nossa percepção? O que sentiremos?

Ontem, recordei uma frase índia: “Hoje é um belo dia para morrer”.

Talvez isso fosse o melhor. Poder escolher o momento. Um momento em que nos sentíssemos invadidos por uma paz de espírito tão grande, contemplando algo que se nos assemelhasse tão belo e que adormecêssemos calmamente a olhar e dizendo: estou tão feliz que morria neste momento.

Breve

Brisa que passa num sopro,
Invisível e breve.
Carícia fugaz.
Carícia suave.
Não sabemos de onde veio;
Desconhecemos para onde vai.
Anónima.
Passa, mas não se detém.
Perto de todos;
Próximo de ninguém.

Reflexão

Diz-me.

Alguma vez te puseste a pensar, num determinado momento, como ali chegaste? Àquele preciso instante?

Eu explico.

Imagina-te a conversar com alguém que acabaste de conhecer. Ou dando por ti num local que, até então, era para ti um cenário inimaginável. Ou, simplesmente, a tomar um café.

Nesse momento, pára!

Pára e pensa toda a toda a tua vida até esse instante. Em todo o teu percurso, escolhas, decisões, acasos ou não. Como se toda a tua vida confluísse para esse exacto momento, até àquela fracção de segundo que te fez suspender o tempo e o espaço. Como se tivesse sido esse o propósito de teres perdido aquele autocarro longínquo. Daquele ano escolar que repetiste. De teres decidido faltar àquela aula para estar com os amigos. Daquela festa a que decidiste ir ou faltar. Daquele telefonema que atendeste. Daquela zanga que tiveste. Dos serões que passaste. De um beijo perdido algures. Enfim...

Recordas todas as acções que fizeste ou que deixaste por fazer. O que disseste e o que deixaste por dizer.

Subitamente, dás contigo imerso em pensamentos, a recuar a tantos momentos e a procurar, em cada um deles, o sentido da tua vida.

Pessoas que conheceste pelo caminho. Umas, tornaram-se amigos. Outras desejavas nem as ter conhecido. Outras, ainda, nem sequer te deixaram a memória das feições ou do nome, mas algum papel também devem ter desempenhado na tua vida, para que agora as recordes.

E o teu semblante carrega-se. E o teu semblante alivia-se num sorriso. E o teu olhar torna-se líquido na emoção da alegria e da tristeza, recordando-te a dualidade.

Tudo aquilo que foste e que és e que te conduziu àquele momento inicial.

Talvez o lamentes ou não. Talvez te carregue o semblante, ou não.

Na Sala do Fundo II

Acordou muito tempo antes do Tirano do Tempo lhe vir recordar que era tempo de levantar-se.

O Tempo, sempre o Tempo…

(O Tempo contra o qual corremos. O Tempo, que nos esforçamos por acompanhar numa corrida louca, contra o tempo. Maratonista incansável ao lado do qual corremos até ao dia em que não conseguimos mais, em que a falta de fôlego nos vence ou quando, simplesmente, decidimos abandonar a corrida a meio. Mas ele, o Tempo, não pára, não espera. E corre, corre até ao Infinito.)

Há algumas horas que lutava contra o tempo. Fitava o tecto do quarto sem conseguir dormir. Virava-se na cama, de um lado para o outro, procurando posição, mas o sono, esse, tinha-lhe fugido, deixando a porta aberta para os sonhos acordados.

(Sonhos, se sonhos lhes quisermos chamar porque outro nome menos agradável poderão ter, que nos invadem a mente sem serem convidados. Que nos obrigam a deambular pelo Universo Onírico, surreal, mas não necessariamente falso. Distorções do real, sim, mas que derivam da realidade. Talvez por isso, nos incomodem tanto, por essa, ainda que infíma relação com o real, com a origem dessa abstracção.)

A casa estava silenciosa.

Contudo, havia um murmúrio constante e uma voz que lhe falava. Uma voz permanente que lhe falava naquele quarto vazio, naquela casa vazia, naquele espaço vazio, onde ecoavam as palavras.

(Palavras que escutamos à nossa volta e dentro de nós. Palavras nem sempre num tom suave e aprazível. Palavras que compõem frases terminadas em exclamações, interrrogações e afirmações, que nos espantam, interrogam e constatam. Tal como os sonhos, nem sempre correspondem ao real. Mas partem dele. Podem distorcê-lo, para nosso alívio ou infortúnio.)

Virou-se novamente na cama.

Sacudiu a cabeça, procurando evitar a voz. Pressionou as palmas das mãos contra os ouvidos que teimavam em escutar.

Na janela aberta, bailava a cortina. Bandeira desfraldada, ao sabor da corrente de ar fresco que lhe invadia o quarto. Bandeira de uma nação desolada, de um país imaginário, de uma terra longínqua, de navio pirata, de tréguas, de um qualquer país de conto de fadas, idílico. Um qualquer refúgio longínquo, onde nunca sequer se esteve.

Lenço acenado.

Fantasma ululante.

Ou, simplesmente, uma cortina. Esvoaçando ao sabor do vento.

No agitar dos pensamentos que lhe sacudiam a mente, contorcia-se num estado febril, acentuado pelo cansaço.

Novamente, os olhos fixos no tecto rendem-se à insónia.

Levantou-se e dirigiu-se à porta do quarto. Fechada.

Rodou a maçaneta. Continuou fechada.

Sacudiu a porta e a porta permaneceu fechada.

Espanto e estupefacção, conduziram o olhar em redor. A uma observação atenta que não tinha feito antes. Aquele quarto, não era o seu quarto de dormir. Não percebeu como ali tinha ido parar, nem como não reparara na diferença. Dir-se-ia que ali se tinha deslocado num qualquer estado de sonambulismo. Num momento de inconsciência que não tinha percepcionado?

Definitivamente, não estava no seu quarto! Reconhecia agora aquele espaço: câmara recôndita e obscura que tanto temia, onde evitava entrar, de onde temia não sair.

As paredes fechavam-se sobre si. Faltava-lhe o ar. Sentia a cabeça rodopiar e uma sensação de náusea crescia dentro de si.

A voz tornava-se cada vez mais elevada, mais difícil de afastar, como se fosse um arauto maldito.

“Não, não é verdade!”.

A voz murmurava-lhe.

“Não quero saber!”.

A porta que não abria.

A voz dizia-lhe.

“Sai daqui! Deixa-me, sai daqui!”.

A voz alertava.

“Pára!”.

As paredes curvavam-se.

“Basta!”

A porta fechada.

Deixou-se cair de joelhos e curvou-se sobre si. Mãos pressionadas contra os ouvidos. A porta fechada, apenas aberta para os pesadelos acordados. Um grito. As paredes fechavam-se e abatiam-se sobre si. A voz.